Ele a encarou, pálido e paralisado como uma estátua de mármore enquanto as pessoas andavam rapidamente de um lado para o outro, arrumando lençóis, cama, ou simplesmente tentando conter a própria ansiedade perante a situação. Mas Snape permaneceu ali, os joelhos contra o chão, como se pela primeira vez na vida sua mente astuta não conseguisse raciocinar o que estava acontecendo.
â Você está bem,... Sev? â Alice temeu que seu marido também fosse precisar de um médico.
â São apenas... â Ele gaguejou nervoso, â São apenas sete meses, como...?
Sebastian repousou a mão firme sobre o ombro do genro, quase o lançando um olhar preocupado ao testemunhar a tensão no bruxo. Snape olhou para o outro com os olhos demonstrando nada mais que a mais pura preocupação, e ele lhe devolveu uma expressão de simpatia e serenidade.
â Severo, Alice é mestiça! Geralmente a gestação de um meio vampiro é mais rápida do que o normal!
â Essa pequena nasceu com apenas seis meses e meio! Fique tranqüilo, meu amigo, o bebê nascerá forte e saudável! â Victoria interveio, complementando a fala do marido, um sorriso gentil apareceu nos lábios dela, embora não pudesse deixar de pensar que todos os homens eram iguais nessa questão.
â Mas o bebe... digo... ele... ela!
Ele não conseguia formar uma única frase que fizesse sentido, suas palavras saiam sem qualquer nexo, mesmo os pensamentos estando a mil. Tudo aquilo era tão novo para ele e rápido, tanto que por um momento ele acreditou não estar conseguindo puxar o ar para os pulmões. Severo nunca se imaginou que se casaria e muito menos que se tornaria o pai de alguém. Mas como sempre, o destino gostava de brincar com as pessoas, e com o bruxo não foi diferente quando ele se viu afundando cada vez mais naquele mar escaldante fogo que era Alice. A pequena ladra, como ele apelidou, roubou o que nunca teve dono, e fez dele seu lar permanente. E então tão de repente como se podia imaginar, ele estava enrolado no dedo mindinho dela, sem conseguir cogitar a hipótese de viver um futuro onde ela não estivesse presente. Nenhuma mulher serviria mais, nem um perfume, olhar ou bebida. Alice tinha se tornado tudo para ele, devastando seu mundo, e agora lhe dando o maior dos presentes.
Ele permaneceu intacto, queria poder dizer a ela para respirar, dizer que a estava esperando, a levar para o quarto e lhe segurar a mão, mas não conseguia nem mesmo organizar os sentidos, as pernas simplesmente pareciam não obedecer seu comando. Ela sempre lhe tirou o ar... E agora também estava o arrancando a sanidade.
â Madame Promfrey já está a caminho! â Disse Draco ofegante, franzindo a testa com estranheza ao olhar para o padrinho. â O que aconteceu com ele?
â Parece que o novo papai está em choque! â Alice respondeu com divertimento querendo rir.
O loiro se inclinou ligeiramente para baixo ajudando o padrinho a se ficar de pé novamente, praticamente o arrastando em direção a cozinha para lhe oferecer um copo de Fire Whisky. Ele precisava se recompor.
Entretanto, um grito estrangulado vindo da sala fez todos se achegarem instantaneamente. Severo correu ainda com o copo na mão, visivelmente desorientado, temendo que alguma complicação pudesse vir a acontecer com os dois.
â Acalme-se homem! â Alice repreendeu,â é apenas uma contração, e haverá muitas outras! Tome sua bebida, irá se sentir melhor!
Sebastian envolveu a filha cuidadosamente com os braços fortes a levando até o quarto sendo seguido pela esposa. Os gritos pareciam apenas ficar cada vez mais altos a cada contração. Severo tomou um gole do whisky com a mão trêmula, o corpo estremecendo em resposta aos gritos de Alice. Ele queria entrar lá e dar uma poção para dor na tentativa de aliviar as dores de sua amada, mas toda aquela gente não deixava ele nem se aproximar do primeiro degrau da escada, afirmando que ele somente atrapalharia. Então a medibruxa aparatou, apressada e ofegante, entretanto logo no quarto onde Alice se encontrava deitada.
â Até que em fim! â o mestre de poções exclamou irritado, tentando entrar junto com Promfrey para ver o estado de sua Alice.
â SEVERO PRINCE SNAPE! â a voz de Gina soou irritada quando ela apareceu ao pé da escada. â Não se atreva a entrar naquele quarto! Se você não se sentar agora e se acalmar, eu vou te azarar de uma forma que nem a Lice irá reconhecê-lo depois!
A medibruxa ofereceu uma leve piscadela camarada para Gina, que, por um momento, fez com que o posionista se acalmasse por alguns minutos.
â Com licença,â ela disse ao passar pelo professor entrando logo em seguida no quarto e batendo a porta atrás de si, fazendo Severo bufar, o sangue borbulhando em irritação pela ousadia da garota.
â Respire fundo, querida. â Instruiu Madame Promfrey enquanto analisava a barriga extremamente quente de Alice. â Qual é o seu dom mesmo?
â Fogo! â Respondeu Alice entre dentes, a cabeça pendendo para trás ao sentir mais uma contração, o seu âmbar se fazia presente.
A medibruxa não conseguiu conter o sorriso, apontando a varinha para o ventre da mulher.
â Severo que se segure.â ela sussurrou apenas.
****
Quando Alice disse que a bolsa havia estourado eu não soube o que deveria fazer, foi um baque, senti como se uma nova guerra tivesse iniciado... Dentro de mim! Eu queria estar lá ao lado dela, queria poder lhe dizer tanta coisa, ajudá-la a suportar a dor, mas fui negado de até mesmo me aproximar da porta. E agora aqui estou completamente nervoso, com a certeza de que nenhuma dose de álcool irá me acalmar.
E a cada grito abafado que vinha do segundo andar eu me levantava e passava as mãos pelos cabelos, me sentindo completamente impotente e enlouquecido.
"Por Salazar, â pensei, â quanto tempo um parto deveria durar? "
Sem perceber comecei a andar de um lado para o outro, os dedos estavam inquietos em pura ansiedade. Meus olhos voltando constantemente para os degraus da escada.
"Foi uma loucura ter chamado Promfrey! â balancei a cabeça; aquela velha estava mais do que caduca, poderá pôr a vida dos dois em risco!"
â Diga-me mais sobre acalmar-se e ficar sentado, quanto sua esposa irá dar a luz! â Cutucou Draco, se lembrando das exatas palavras que o padrinho tinha dito a ele quando Luna estava entrando em trabalho de parto.
Bufei em irritação. Aquela definitivamente não era a hora mais apropriada para brincadeiras. Voltei a me sentar, batendo a sola do sapato repetidamente contra o chão.
â Tenho certeza de que vai dar tudo certo, professor.â Disse Harry tentando soar reconfortante.
â Cala boca Potter! O que você entende de parto? Sua mulher nem deu a luz ainda!
Harry conteve a risada perante o nervosismo de Snape.
â Somos praticamente uma famÃlia só, Snape! â o moreno não pode evitar de implicar, â Esqueceu que sou o padrinho do seu filho?
â Ora seu...
Estava prestes a lançar uma imperdoável naquele impertinente do Potter, quando eu ouvi. Era agudo e alto, forte, certamente o som mais belo que já ouvira. Era ele, meu pequeno havia nascido.
Senti meu coração acelerar dentro do peito em emoção, ele havia nascido, eu precisava entrar, mas aquela velha intrometida disse que Alice precisava descansar. Respirei fundo antes que uma veia acabasse por se romper.
â Parabéns Severo! â Disse Promfrey, â à um menino lindo!
â Obviamente que é, â rebati com a lÃngua afiada e uma pitada de indignação, â Agora deixe-me entrar!
â Já lhe disse seu velho cabeça dura, Alice está descansando!
â Não se preocupe, Promfrey, â Victoria tranquilizou com a mesma expressão serena de antes, â Tomaremos conta dele!
Então tive que esperar por mais algum tempo, afinal, minha sogra conseguia ser mais brava do que Alice apesar de parecer tranquila na maior parte do tempo, e que Merlin o protegesse pelos anos que viriam a seguir. Sorri com o pensamento por um instante, só para então me ver ficando cada vez mais impaciente, essa maldita hora não parecia passar enquanto todos me parabenizavam meu único foco de verdade era entrar naquele quarto e ver se eles estavam bem.
Victoria entrou no quarto, dizendo que iria verificar se Alice estaria acordada, mas isso era demais para mim, ela já havia dormido o suficiente. Levantei exacerbado da poltrona onde estive sendo mantido sentado, pelo que pareceu a eternidade, quase caindo no processo. Subi as escadas a passos rápidos e desesperados, passando pela porta sem cuidado algum.
Foi ai que eu os vi, e essa fora a cena mais encantadora que já presenciei em toda minha vida. Alice segurava em seus braços algo tão pequenino, que parecia um brinquedo. Ele segurava o seio da mãe com vontade... meu pequeno ganancioso. Lice olhou para mim e simplesmente sorriu, e eu havia me enganado em pensar que a primeira cena tinha sido a mais encantadora até então.
Sorri de volta ao me aproximar, sem nem sentir o chão abaixo de meus pés, sentei na beira da cama depositando um beijo casto sobre os lábios de minha esposa, o polegar roçou sua bochecha quando nossos olhos se encontraram novamente e naquele momento tudo parecia fazer sentido em minha vida.
â Como o chamaremos? â ela perguntou com a voz baixa ao se recostar em meu ombro permitindo com que eu a envolvesse com o braço esquerdo.
Meus olhos piscaram algumas vezes com a percepção de que ainda não tÃnhamos pensado em um nome para o pequeno. Deuses, havia sido uma gestação rápida.
â Alaric? â sugeri olhando para o garotinho que resmungou fazendo beicinho ao se contorcer ligeiramente fazendo com que Alice o balançasse cuidadosamente. Aparentemente ele não tinha gostado do nome.
Pensei mais um pouco forçando minha mente a trabalhar mesmo estando sobrecarregada quando a Victória deu um passo a frente olhando para o neto, como se estivesse avaliando com qual nome ele seria mais parecido.
â Alan? â a bruxa proferiu em forma de sugestão.
Os resmungos cessaram quase de imediato quando o garotinho olhou para os pais com os olhinhos curiosos, mas sorriu em contentamento, aprovando o nome. E então eu pude encara pela primeira vez os olhos que tanto amava, eram idênticos aos de Alice.
â Alan... â repetiu Lice em estado de êxtase.
â Nosso pequeno...â completei com a voz baixa passando os dedos levemente pelos cabelos escuros do garotinho, caindo inevitavelmente naquela imensidão azul mais uma vez.
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(Quem é vivo sempre aparece, não é? Oláa morceguinho!)