Chapter 4 of 5

Ultimas palavras

Katerina680 words~4 min read

31 de janeiro de 1897

Querido Henry,

Pela sua carta, entendi que você se preocupa comigo, mas quero que saiba que essa nunca foi minha intenção. Na verdade, comecei a escrever tudo isso pois queria ser ouvido, e ser ouvido por alguém em quem confiava. Você nem precisava responder, nem precisava se preocupar em acreditar no que digo, e se acha que estou louco, tudo bem! Enfim, não vou tentar convencê-lo mais de nada, apenas leia como se fosse uma história ficcional, se fizer mais sentido a você.

A última vez que vi Katerina foi quando ela finalmente decidiu me contar algo sobre si própria. Não sei se é legítimo que eu conte o que ela me disse, pois faz parte da existência dela e deveria ser dever dela compartilha-lá. Mas, de qualquer forma, vou contar como eu entendi, e tentarei replicar ao máximo a forma como ela me contou.

Bem, Katerina foi uma irmã mais nova de três filhos. O mais velho era Viktor, seis anos mais velho que ela; a filha do meio era Anna, com dois anos de diferença apenas. Seus pais, ambos, eram frustrados com a situação que se encontravam. Lucia, a mãe, já foi em algum momento uma pintora, e o pai, Franz, sonhou em ser um alquimista. Ela era dona de casa, ele um comerciante. Katerina descreveu sua infância como o momento mais feliz que poderia ter vivido, apesar de ter poucas lembranças concretas. Quando fez seus 15 anos, muitas coisas começaram a acontecer ao mesmo tempo, o que não foi algo tão positivo. Seu irmão saiu de casa, foi morar com amigos em Paris. A irmã estava cada vez mais distante, por motivos diversos. No entanto, é fato que seus pais eram um tanto liberais, e por razões deles próprios, permitiram que ela trabalhasse como aprendiz de um médico amigo da família. Seu pai tinha uma certa inveja do homem, apesar da admiração, pois ele vinha trabalhando com alquimia. Ele estava em busca de uma espécie de "cura total", algo que curasse completamente a peste. Nos atendimentos a pacientes com a doença, ele testava o resultado de suas pesquisas, a maioria não tendo qualquer efeito, e em alguns casos, piorando o quadro. Katerina afirmou que apesar de tudo, se fascinou pela ideia da cura, e passou a trabalhar sozinha com base no que aprendia com ele. Mas ela não conseguia testar suas receitas em pacientes, por uma questão de ética interior, segundo ela. Então, para prosseguir com as pesquisas, ela decidiu se infectar. Sem o conhecimento do médico, ela visitou uma paciente que haviam atendido mais cedo, e cujo caso era incurável, sem proteção. Ela afirma não se lembrar detalhes dessa visita, ou de quando os sintomas começaram. Assim que voltou da casa da mulher, se isolou no porão da casa do médico, que ele havia cedido como seu laboratório. Ela deixou a ele um bilhete dizendo que não entrasse de forma alguma e não permitisse visitas, mas sem qualquer explicação. E testou em si alguns elixires que havia desenvolvido. Nem ela própria sabe qual deles funcionou, e de que modo. Segundo ela, sabia que algum deles era o certo, e que se não fosse ao menos ela havia tentado. Mas as dores diminuíram, as manchas que começaram a surgir já não existiam mais, e foi como se ela nunca tivesse adoecido. E essas são as últimas coisas que ela se lembra de sua vida humana, tudo baseado em seu relato. O elixir, seja ele qual for, a transformou em um ser mágico e imortal, um ser que não sofre de quaisquer males físicos. Eu estava diante da salvação da humanidade. Da grande cura. Da nova era. E estava diante de alguém muito mais complexo do que imaginei. Eu a amava, creio. Pedi a ela que tentasse reproduzir o que fez, que me ajudasse a trabalhar com ela, que me permitisse ser seu aprendiz. Mas quando sugeri isso, ela sorriu, e desapareceu

Enfim, eis a dor do homem que foi ao céu e ao inferno, meu caro

Seu amigo para todo momento,

Eddie

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